Sem mensagens institucionais, por ora, só mesmo o texto, como deve ser:
-- Eu tou estudando, ué. Você não sabe?
-- Sei?
-- É verdade, não sabe. É a primeira vez que nos encontramos.
-- É a primeira vez pra uma porção de coisas.
-- Mas não é a primeira vez que eu faço outras coisas.
-- Que coisas não é a primeira vez?
-- Vestibular.
-- Quantas vezes você já tentou?
-- Três vezes.
-- Três?
-- Pra valer, essa é a terceira. Quarta, se contar treineira.
-- É tão difícil assim?
-- Pra você não foi?
-- Quem disse que eu fiz vestibular?
-- Não?
-- Não.
-- Por que não?
-- Por que sim?
-- Não sei. Hoje em dia, todo mundo faz.
-- Há! Você fala hoje em dia como se eu tivesse nascido em outro século.
-- Não, não é isso. Depois, eu nasci no mesmo século que você.
-- É?
-- É...
-- Bom, na época em que eu nasci, você só fazia vestibular se quisesse entrar numa faculdade.
-- Mas é claro!
-- Quer dizer que você quer entrar numa faculdade?
-- ... Quero...
-- Qual?
-- ... Não sei. Ainda. Não decidi. Não sei ainda.
-- Esse é o problema, percebe?
-- Você também não sabia?
-- Não, não é isso. Eu digo que não quis fazer faculdade, e você pergunta: por que não? Eu, ao contrário, pergunto pra você: por que sim? A diferença é a seguinte: eu nunca me preocupei com a questão de por que não fazer faculdade, simplesmente porque eu nunca tive um motivo pra sim, fazer. Já você, que também não tem motivo pra fazer, fica se iludindo com a pergunta por que não.
-- Mas não tem...
-- É claro que você, que é inteligente e tem imaginação suficiente, poderia pensar numa porção de motivos pra não fazer faculdade. Isso é fácil. Mas a questão é: por que sim? E pra isso você não tem resposta, porque não é questão de imaginar, é uma questão que o motivo teria que ser real.
-- Mas eu tenho um motivo real.
-- Você acha que tem, e por isso não se contenta com o fato de que não tem. Você não tem um motivo real pra fazer faculdade, e essa idéia simplesmente não te abandona. Esse por que sim te persegue onde você vá, te persegue dia e noite, no meio dos teus estudos e no meio da noite, e até agora, no carro, não são os meus inimigos que tão te perseguindo, é esse por que sim, que você não consegue responder e por isso não te deixa ir embora.
-- Será? Você acha que eu tou fugindo? Porque eu tenho motivos pra fazer faculdade. Só não tinha parado pra pensar neles!
-- Tem?
-- Tenho, claro. Não ia fazer só porque todo mundo diz que eu tenho que fazer.
-- Quem diz?
-- Minha mãe. Você.
-- Eu digo?
-- Disse.
-- Quando eu disse isso?
-- Ah, é. É a primeira vez que nos encontramos. Sempre esqueço.
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